POST 11 – A pamonha teimosa!
Era ano de 1981. Eu tinha saído do sufoco das nove horas diárias de aula da
ESAP, e já trabalhava nos Correios. Completava três anos em Brasília, e um ano naquele meu primeiro emprego. Um dia, ao ver na padaria da quadra uma ressecada pamonha, lembrei-me da frase do
meu pai: “Não deixa pingar o caldo da pamonha!”. O crachá da atendente dizia que seu nome era Dinorá.
Já saí dali cantarolando o refrão de um xaxado
que acabara de compor: “Segura a
pamonha, Dinorá... segura a pamonha, mas com cuidado, o melhor é o caldo,
não deixa pingar”. Mostrei no dia
seguinte aos colegas de trabalho e o austero ambiente da ECT se
transmutou em palco de risadas; foi grande a
galhofa, uma espécie de terapia reconfortante para
todos.
Logo em
seguida, a convite de alguém fui a uma
festa no Clube Naval de Brasília. Era meu hábito cavar uma canja em todo
lugar que tivesse música ao vivo. Assim, com violão em punho, no primeiro
intervalo da banda, resolvi mostrar à
plateia a música “Segura a Pamonha”.
Cantei
menos de um minuto e desligaram o microfone.
Comentei sem
graça: “Parece que deu um probleminha no som”. Um moço que mexia na mesa acústica, explicou-me ao ouvido: “Não houve nenhum problema no som, mas esse tipo de música não pode tocar aqui”.
Desci do palco com um sorriso amarelo e em pouco tempo tratei de deixar o
lugar. Atribuí o conservadorismo à natureza do clube e à idade dos presentes. Fiquei
uns dias bem desanimado. Mas a coisa não pararia por aí.
Depois, ao final daquele ano, viajei de férias a Natal. Na rua de
minha infância, minha amiga chamada Ceiça reuniu outras meninas da
vizinhança e me chamou para tocar violão
em sua casa. Sentindo-me à vontade no meio de jovens de minha idade, inventei de cantar em dado momento a
música “Segura a Pamonha”. Ao chegar
ao refrão, ouvimos um brado retumbante.
Era a mãe de Ceiça, encolerizada:
- Essa pamonha
já esgotou minha paciência! Vamos acabar agora com essa pouca vergonha! E já
pra fora da minha casa!
Saí muito constrangido e confesso que
me traumatizei e nunca mais cantei em público a música. Mas ela, apesar de guardada no
fundo do baú, de tempos em tempos me vinha à mente. Ao me aposentar e
visualizar o que deveria fazer, lá estava a danadinha, em primeiro lugar na
fila, teimando, querendo uma nova chance. O fato é que a terceira idade nos dá
esse direito de sermos malcriados. Foi assim que a pamonha saiu do exílio, do index prohibitorum.
P.S: Por
tudo que há na terra, não esqueça de deixar seu laique, seu comentário, sua
proposta para me entrevistar em uma grande rede de televisão ou rádio, etc.
Isso é o empurrão que falta para alçarmos voo em nosso paraquedas.

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