sábado, 2 de fevereiro de 2019

COMO ME TORNEI O QUE SOU-POST3



POST3 (primos & companhia)

      Aquelas crianças e jovens da caravana cresceram, começaram a namorar e formar casais entre si. As famílias Pereira e Laranjeira ficaram ainda mais próximas. Nasceram novas crianças que agora eram primas.
     Essas novas crianças viraram adultos e também casaram com primos. Dizem que alguns doidos que surgiram foram fruto dessa junção repetitiva de genes. Mas há o lado bom: foi preservado o caráter, a crença em um ser supremo chamado Deus, as tradições de generosidade, de linguajar comum, de hábitos comuns.
     No ano de 1918 nasceram meus pais, Avelino e Rosália, também primos. Brincaram juntos por toda a infância, foram a festas na adolescência, dançaram, ficaram noivos com pessoas diferentes, marcaram casamento e desistiram de supetão, às vésperas dos casórios, descobrindo que se amavam e não aos noivos com os quais iriam casar. 
     Trocaram as proclamas que estavam fixadas na porta da igreja. Coisa de doido! Parecem ter nascido um para o outro. Tiveram sete filhos. Um morreu ainda criança (Zeleno). Dos seis sobreviventes, sou o caçula.
     Meu pai teve sucesso financeiro, ainda jovem, primeiro com o comércio de rapadura e farinha; depois com o comércio de gado. Tudo que ganhava, transformava em terras. Teve várias fazendas, plantou cana no Vale do Ceará Mirim, e algodão, na Ribeira do Potengi. Em ambas as regiões criou gado para engorda e produção de leite. Ora tinha o estalo de plantar abóbora; ora cajueirais e coqueirais imensos; ora amendoim.
     Ele fez muitas apostas ousadas, algumas sem pé nem cabeça; via luzes onde ninguém via nada. Pelos menos dois bairros de Natal estão integralmente situados em terras que foram suas. Um deles, invadido por pessoas sem teto; outro, trocado por alguns cachos de banana, no início de sua bancarrota.
Vocês imaginam como é ser filho de um casal de doidos? Pois vamos em frente...  

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