POST3 (primos
& companhia)
Aquelas
crianças e jovens da caravana cresceram, começaram a namorar e formar casais
entre si. As famílias Pereira e Laranjeira ficaram ainda mais próximas.
Nasceram novas crianças que agora eram primas.
Essas novas
crianças viraram adultos e também casaram com primos. Dizem que alguns doidos
que surgiram foram fruto dessa junção repetitiva de genes. Mas há o lado bom:
foi preservado o caráter, a crença em um ser supremo chamado Deus, as tradições
de generosidade, de linguajar comum, de hábitos comuns.
No ano de
1918 nasceram meus pais, Avelino e Rosália, também primos. Brincaram juntos por
toda a infância, foram a festas na adolescência, dançaram, ficaram noivos com
pessoas diferentes, marcaram casamento e desistiram de supetão, às vésperas dos
casórios, descobrindo que se amavam e não aos noivos com os quais iriam casar.
Trocaram as proclamas que estavam fixadas na porta da igreja. Coisa de doido! Parecem ter nascido um para o outro. Tiveram sete filhos. Um morreu ainda criança (Zeleno). Dos seis sobreviventes,
sou o caçula.
Meu pai teve
sucesso financeiro, ainda jovem, primeiro com o comércio de rapadura e farinha;
depois com o comércio de gado. Tudo que ganhava, transformava em terras. Teve
várias fazendas, plantou cana no Vale do Ceará Mirim, e algodão, na Ribeira do
Potengi. Em ambas as regiões criou gado para engorda e produção de leite. Ora
tinha o estalo de plantar abóbora; ora cajueirais e coqueirais imensos; ora
amendoim.
Ele fez
muitas apostas ousadas, algumas sem pé nem cabeça; via luzes onde ninguém via
nada. Pelos menos dois bairros de Natal estão integralmente situados em terras
que foram suas. Um deles, invadido por pessoas sem teto; outro, trocado por
alguns cachos de banana, no início de sua bancarrota.
Vocês
imaginam como é ser filho de um casal de doidos? Pois vamos em frente...

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