POST 4 – o
centro cultural doméstico
Meus pais se entendiam muito bem, apesar
dos temperamentos opostos. Ele, extremamente brincalhão, não livrava a cara de
ninguém; ela, dramática e emotiva. Talvez por isso eu tenha o chamado igualmente forte da
comédia e do drama.
Minha mãe era
uma grande atriz: gesticulava e usava onomatopeias em tudo que contava. Isso influenciou
na minha opção precoce pelo teatro, embora tenha sido um ator mediano.
Ela cantava o dia inteiro, enquanto cozinhava
ou pedalava sua máquina de costura Singer. Eram
músicas tristes de Luiz Gonzaga, Teixeirinha e Vicente Celestino. Meu pai, sem as mesmas habilidades
canoras, preferia a gaiatice de Jackson
do Pandeiro.
À noite, balançando-nos em redes de
dormir, os dois nos contavam "estórias de trancoso" e recitavam romances de cordel inteiros, prodigiosamente
guardados em suas memórias hiperativas. Para ser mais exato, eram “romances de jumentaria”,
a versão nordestina dos romances de cavalaria.
Na culinária
típica, minha mãe era expert, tanto nos convencionais munguzá, canjica, buchada e
outros quejandos, como na sua inigualável pamonha cremosa, que derramava um delicioso caldo, quando
aberto o invólucro da palha do milho, isso além de outras invenções
gastronômicas.
Algumas, a
pedido do meu pai, eram verdadeiras aberrações, por exemplo, o testículo
recheado com cérebro – ambos bovinos -, rabada, mocotó e tutano; um verdadeiro
festival de comidas exóticas. Era um
mundo mágico e louco.
Aos meus oito anos, mais um doido
entrou em nossa família. Conheçam a história e cheguem às suas conclusões...

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