segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

COMO ME TORNEI O QUE SOU-POST4


POST 4 – o centro cultural doméstico

     Meus pais se entendiam muito bem, apesar dos temperamentos opostos. Ele, extremamente brincalhão, não livrava a cara de ninguém; ela, dramática e emotiva. Talvez por isso eu tenha o chamado igualmente forte da comédia e do drama.
     Minha mãe era uma grande atriz: gesticulava e usava onomatopeias em tudo que contava. Isso influenciou na minha opção precoce pelo teatro, embora tenha sido um ator mediano.    
     Ela cantava o dia inteiro, enquanto cozinhava ou pedalava sua máquina de costura Singer. Eram músicas tristes de Luiz Gonzaga, Teixeirinha e Vicente Celestino. Meu pai, sem as mesmas habilidades canoras, preferia a gaiatice de Jackson do Pandeiro.
     À noite, balançando-nos em redes de dormir, os dois nos contavam "estórias de trancoso" e recitavam romances de cordel inteiros, prodigiosamente guardados em suas memórias hiperativas. Para ser mais exato, eram “romances de jumentaria”, a versão nordestina dos romances de cavalaria.  
     Na culinária típica, minha mãe era expert, tanto nos convencionais munguzá, canjica, buchada e outros quejandos, como na sua inigualável pamonha cremosa, que derramava um delicioso caldo, quando aberto o invólucro da palha do milho, isso além de outras invenções gastronômicas.
     Algumas, a pedido do meu pai, eram verdadeiras aberrações, por exemplo, o testículo recheado com cérebro – ambos bovinos -, rabada, mocotó e tutano; um verdadeiro festival de comidas exóticas. Era um mundo mágico e louco.
     Aos meus oito anos, mais um doido entrou em nossa família. Conheçam a história e cheguem às suas conclusões...

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